Homens amam futebol ou só amam ter uma desculpa para demonstrar sentimentos? O futebol surgiu a princípio como uma ferramenta para formar homens, não atletas. A ideia nas escolas de elite inglesas era utilizar o esporte para produzir disciplina, autocontrole, liderança, resistência física e competitividade. Tais características estão ligadas ao conceito de cristianismo muscular, um movimento que acreditava na masculinidade ativa e em um corpo forte e atlético como elementos essenciais para a formação de bons cristãos. Por isso, esportes como futebol eram vistos como uma ferramenta eficaz para afastar os jovens de comportamentos considerados afeminados ou intelectuais demais. Mas, se o futebol surgiu ligado a um projeto de reafirmação da masculinidade, por que se tornou um dos únicos espaços em que os homens se sentem seguros para se permitir sentir? A resposta pode estar justamente na contradição. A maioria dos homens tem enorme necessidade de vínculos emocionais com outros homens. Porém, em uma sociedade construída em cima de uma masculinidade compulsória, essas trocas se tornam praticamente impossíveis, exceto no futebol. No ambiente do futebol, seja em campo ou na torcida, os homens podem abraçar uns aos outros, chorar juntos, cantar, demonstrar afeto e lealdade emocional. Tudo isso sem que suas masculinidades sejam questionadas. E como observou Pierre Bourdieu, a masculinidade não é apenas uma condição, mas uma coisa que precisa de constante reafirmação. Mas o futebol já se tornou um espaço tão associado à masculinidade que os homens passarão a não precisar mais defendê-la dentro dele. Praticamente como se fazer parte dessa comunidade já fosse a própria confirmação, tornando assim o futebol não só um esporte que movimenta o mundo, mas também um espaço socialmente autorizado de intimidade masculina. E é interessante a contradição criada pela própria ideia. Fora do estádio, homens escutam e reproduzem frases como homem não chora, homem não demonstra fraqueza, se veem um homem muito perto do outro, já soltam um lá ele mil vezes. Mas, dentro do estádio ou das próprias salas enquanto assistem os jogos da Copa, esses mesmos homens choram, gritam, tremem e abraçam desconhecidos quando um gol é marcado. E talvez esse seja o maior paradoxo do futebol. Um esporte criado para ensinar os homens a serem fortes acabou se tornando um dos poucos lugares onde eles podem ser vulneráveis. Talvez os homens não amem apenas o futebol, talvez amem a oportunidade de sentir coisas e não se julgarem por isso.
— .(Escrito dia 24/06/2026, às 17:14).


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